Monday, October 13, 2014

Chave Mágica

Foi me dada ao nascer uma chave mágica.
Procurei por muito tempo uma fechadura.
Testei todas as portas de todas as casas da minha família.
Procurei em bosques, procurei em pessoas, em namoradas e ídolos.
Na música, na palavra escrita, em igrejas e capelas.
Procurei no meio de multidõese na mais perfeita solidão.
Nunca achei nada que a chave abrisse.
Nem uma mísera lancheira. Nem um cadeado de armário. Nem as pernas de uma mina. Nem um caixa Itaú. Nada.
Cansado de andar com a pesada chave no pescoço decidi um dia dar o basta e engolir a dita cuja.
Explodi em 100 pombas e 100 ratos na Praça da República.
Fico aqui agora, destrancado, morto e satisfeito.

Thursday, August 06, 2009

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rotula

Impressionante.
Posso mover minha rótula por debaixo da minha pele. Pego a rótula, e com um esforço vou rolando ela como uma bola de gude embaixo de um pano de mesa. Dói pra caralho, sou obrigado a confessar. Mas quando ela esta na altura da coxa direita (só funciona com a rótula direita, sei la porque), ja passou a dor e voce ja acostumou com o resto da perna pendurada ali.
Dai é só ficar olhando o caroçinho da rótula esticando a pele do quadril, da barriga, embaixo do umbigo (que da uma puta aflição). nunca tive coragem de rolar ela perto do pinto.
Mas uma vez eu puxei ela pelo peito através da garganta e comecei a subir a rótula pelo pescoço. Ela comprimiu minha garganta, mas esta por fora do buraco da garganta, na massa do corpo mesmo, carne, gosma, musuculo, sei la o que completa os espaços brancos dos desenhos de 2o. grau.
Dai eu tava com esse caroço no meio da cara, na bochecha. Foi engraçado pracaralho. Tipo homem elefante. Dai eu puxava para sobrancelha e tampava a outra metade da cara e ficava brincando de frankenstein.
Tive que sair do banheiro, ja tava ficando estranho em casa. Desci a rótula de novo até o joelho e tudo voltou ao normal.

V

Olha lá! Lá vem o cara que vai repetir as mesmas mentiras que me contam desde o princípio dos tempos.
Ele vem vestido da forma certa e com uma fala ensaiada e todos os sorrisos que o dinheiro pode comprar.

pique

Temos um medo danado do futuro. Ando notando que com meu destino eu jogo um jogo de esconde-esconde doentio; eu fecho os olhos, conto até onde minha paciência aguenta e saio em uma procura desvairada nos mais diversos e imprevisíveis lugares.

Eu vejo sua sombra atrás de um armário velho, eu vejo a silhueta no muro da casa, eu chego a passar a mão em cima de sua sombra projetada na mesa do café. E não ganho. Um instante antes de alcançá-lo e finalmente ganhar essa rodada, eu me vejo voltando correndo para o pique e fechando os olhos de novo.

Esperando meu futuro se esconder, até que eu esteja seguro de que terei que voltar a procurá-lo, mas que não exista chance nenhuma de eu conseguir agarrá-lo.

Monday, March 09, 2009

tempo 2 - a punheta

O tempo anda para frente. Eu fico parado.

A vida é feita em cima de um trilho. Você dirige, mas não dirige assim como que guiando um cavalo num campo aberto. Você dirige como um maquinista de trem. Uma direção. Acelera e brequa, e nada muito brusco, e reza para não atropelar nada. Reza pros trilhos segurarem firme para a merda toda não descarrilar.

O destino é como uma salvaguarda da criação. Um guia invisível e um juiz. O aparente acaso que vivemos limita o impensável do que poderíamos nos tornar e sendo assim define nossa falta de controle e nos torna animais, não deuses.

O tempo anda, e minhas presas são afiadas, assim é meu relógio, e com cada passo que deixo de dar aumenta a minha comunhão com o tempo.

Deixem o tempo andar por si; andar com ele é marchar com um arco e flecha ao lado de um missil nuclear: risível.

"Mas eu tomo as minhas decisões!" Claro que toma... claro que toma....

Friday, February 27, 2009

Cena 32 - Dentro do Moinho Abandonado

-Vamos, entra! Esta tudo bem, pode entrar aqui.. esta escuro mas o chão esta seco.
-Não tenho medo do escuro, e tambem não tenho medo de chão molhado! Tenho medo das pessoas com as facas e as tochas!
-Por isso mesmo, Mila querida! Aqui não tem ninguém. É seguro para nós. Passamos a noite aqui e de manhã vamos para o mato grosso.
-A é... E como vamos até a porra do Mato Grosso sem carro e sem dinheiro? Senhor "ex contador de imobiliária / genio da fuga"?
-Vamos de carona... sei la.. roubamos um carro..
-Roubar um carro!? Voce ta louco?!
-Alguma idéia melhor? hein? talvez voce possa dar prum caminhoneiro que te leve la! Ja que sua grande bunda nos colocou nessa furada, podia ser ela a nos tirar tambem!
-Cala a boca! Cala a boca e esquece disso... que merda....
-Desculpa amor... eu não queria...
-Shhh
-Ja pedi desculpa...
-SSSHHHH! calaboca Osvaldo... cala a boca e escuta.
-Que que é isso?
-Acho que são cavalos. Fecha a porra da porta.
-To tentando
-Fecha Osvaldo
-ta emperrada... a merd...
-FECHA LOGO
-cala a boca sua vadia!!!
-Ótimo. Vou morrer linchada por um monte de caipiras em cima de cavalos!!! simplesmente ótimo... meu noivo me chama de vadia e eu vou morrer numa merda de um moinho que cheira rato...genial...
-.........foi... fechei. a. porra. da. sua. porta.
-Sera que eles ouviram?
-Acho que não... acho que ta diminuindo o barulho
-Sei la.. para mim parece igual... parece um monte deles... tem uns cinquenta caras la fora Osvaldo!
-Shh calma, deve ser menos... eles estão indo, eles estão indo, escuta! escuta!
-Será?
-Ouve... eles seguiram a estrada! Eu disse que esse bando de imbecil ia seguir a estrada! Eles acham que não íamos ter coragem de quebrar para a mata! Eu disse!
-Eu to cansada Osvaldo...
-Relaxe.. hoje a noite é por aqui...
-Que beleza hein, vou tentar achar um lugar nessa merd....AAAAH ...
-Nina! Que foi? Voce ta bem?!?!
-Acho que sentei num rato.
-.... Puta merda Mila, não grita assim.
-Desculpa, mas eu assustei...
-Fica quieta e tenta relaxar...vamos precisar das energias amanhã.
-Osvaldo.. sera que não da para esperar em outro lugar...
-Na boa, não. Ja demos muita sorte por um dia.E ponto.
-bem...eu acho que matei o rato.
-Bem... de tudo que você ja matou hoje, acho que um rato é o de menos.
-Cala a boca, Osvaldo.

ddp

Assim como a eletricidade, a ação depende de uma tensão que extrapola um limiar.
Ofereço uma prece a todo que mataram e amaram, mas não o suficiente para transformar a vontade em ação.

Monday, January 12, 2009

hmmm

Entre vegetarianos, freiras, budistas new wave, veganos mudernetes nissim lamen, universitárias maconheiras socialistas e a porra do Bono Vox, meu voto vai para um pescador do Pantanal, que perguntado como que ele criou um prato com entranhas de jacaré respondeu : "Ja matei. né? Agora tem que comer tudo."

A maldade não esta no assassinato, está no desperdício.

hidrografia

Parece que toda vez que ela chora, as lágrimas fazem o mesmo desenho na sua cara. Descem do lado dieito da bochecha, ameaçam entrar no canto da boca, escorrem pelo queixo e acabam caindo no peito. Toda vez. Esse padrão eu ja aprendi, e conforme o drama se desenrola, eu fico esperando ver se uma lágrima se rebela e acaba fazendo um caminho novo. Nada. Eu ouvi dizer que prever o trajeto da água numa superfície irregular é um desafio matemático dos mais poderosos. Chega a ser um estudo de caos, dado o enorme número de variáveis. Mas no caso dela acaba sendo a mesma merda sempre. Minha única explicação é que ela chorou tanto, mas tanto mesmo, que ela ja produziu um vale na própria pele, um leito de um rio seco, que apenas espera a época certa para virar o que realmente é.

HOMENAGEM

THE TYGER (from Songs Of Experience)

William Blake

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


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foda. Muito foda.


Tuesday, December 09, 2008

Clarineta

O louco de vermelho tocava clarineta como se fosse uma estrela de rock.
Tinha um resto de cabelo palha sujo para caralho no final de uma testa enorme e balançava a cabeça. e o cabelo ia se trançando com a clarineta, e era uma puta duma zona.

A música era a coisa mais bonita que eu ja ouvi, e de repente tinha pelo menos umas seis pessoas em volta do cara. Detalhe que era de madrugada e era numa estrada perto de Itapeva, então seis pessoas é bastante gente. Gente que parou o carro, e mais uns dois que estavam numa daquelas borracharias biroscas de beira de estrada.

O maluco de suéter vermelho estava praticamente convulsionando conforme a música ia num crescendo, e numa pirueta ele começou a entrar para dentro dum canavial. Ouvíamos a música diminuindo e alguns mais corajosos da nossa liliputiana multidão começaram a entrar no canavial atrás do músico. Eu não. Eu tenho família.

Mas foi a coisa mais bonita que eu ja ouvi, essa canção do louco.

Era uma daquelas músicas raras que falavam de um lugar que você ainda vai visitar, mas que ninguem conhece por enquanto. Era uma música linda cara, parecia que descrevia um pássaro. Eu voltei pro meu apê, e de vez em quando me pego chateado de saber que nada, nada, na minha vida, nem o riso do meu primeiro filho, vai soar tão bonito.

Mais Louco que o Batman

é a melhor frase de 2008 .

Por entre os dedos

Eu vejo areia escapando por entre os dedos.
O tempo que passa e cada minuto de tédio.
Conforme cai a substância da vida, levada para sempre pelo tempo.

Wednesday, January 09, 2008

trecho

Eu permanecia sentado do lado dela, na soleira da janela, olhando o tráfego incessante de pedestres que atravessavam as ruas do centro.

“Você não pode simplesmente permanecer igual ao que você foi um dia... esta fora do seu controle fazer tudo voltar a ser como era.” Ela me disse com grandes olhos cheios de compaixão.

“Eu sei...” Respondi defensivamente.
Na verdade eu não sabia, mas sabia que devia saber.

“A verdade é como um acidente. É rara, mas quando aparece, torna-se irrefutável. A grande maioria das pessoas passa a vida sem pelo menos saber uma das grandes verdades, e você deve entender que descobrir uma coisa desta magnitude muda tudo.” Ela falava devagar, obviamente esperando que eu digerisse a tal da magnitude. O gato cinza-claro que rondava o apartamento escolheu este momento para pular em cima da mesa encostada na janela.

Foi nesse momento que eu notei que a janela do apartamento era daquela feita com duas lâminas de vidro, separadas uns 10 centímetros uma da outra. Como em hospitais. Tinham me dito que este tipo de janela é instalada em lugares com alta propensão a suicídios.

Quantas vezes será que ela já tinha sentado tristemente na janela e dito as mesmas palavras de conforto para alguma pessoa que tivesse acidentalmente percebido o que eu havia percebido alguns dias atrás.

Vários caminhos diversos levavam a este apartamento, e eu sabia que eu havia trilhado apenas um deles. Quantos deles saíram com a coragem de executar a missão? Quantos deles escolheram a janela?

Juntei algumas palavras “O problema não é saber, o problema é que agora que eu sei, eu tenho que fazer alguma coisa.”

“Coragem, garoto!” Uma mão no ombro. Um prêmio para o novo convertido.

Eu pauso e a verdade desce pela minha garganta. Desce de esgueio, do tamanho de uma bala soft. Chega a doer.

“Onde esta a arma?”

“Na gaveta embaixo do gato” Ela aponta a mesa. Eu me dirijo com pesar e abro a gaveta. Envolta num pano de cetim vermelho, a .44 esta com uma aparência velha, mas bem cuidada. Duas vezes mais pesada do que eu esperava, eu quase deixo cair no chão.

“Você se acostuma com o peso... “Ela se aproxima das minhas costas e sensualmente desce sua mão pelo meu braço até o cano da arma. “Você tem apenas duas balas” Sussurra no meu ouvido. “Uma é para você sabe quem...”

“E a outra é para mim...” completo sem senso de entusiasmo.

Thursday, November 22, 2007

Alternativas Viáveis à Felicidade

As pessoas têm uma profundidade infinita, que vai além da nossa capacidade de compreender, mesurar e controlar. O mundo responde com uma outra infinita quantidade de estímulos e situações. Temos milhares de anos de história. Somos produtos de uma série de vetores anônimos, químicos, físicos e espirituais.

Simplificando a punheta: O mundo é complicado.

Por isso sou contra qualquer forma de totalitarismo, dogma imutável ou certeza absoluta.

E não estou sozinho... Qualquer pessoa que valha seu peso em carbono, e tenha um QI maior que da samambaia da sala da minha mãe, sabe que a maioria dos símbolos de status que nos acompanham é desprovida de significado por si. Se não existe dúvida na cabeça do marmanjo que dinheiro é igual à felicidade, todas as pessoas de bem esperam que ele venha perceber, no leito de morte, que na verdade a família é o que vale. E se o imbecil faz tudo pela família, Shakespeare já respondeu que o que vale é o amor. E por ai vamos embora...


O que me leva finalmente ao ponto deste post.

Um aviso honesto ao mais moderno, atual e perigoso dos símbolos de status: a felicidade.

Eu quero ser escultor de cerâmica em Istambul”, “tudo bem! desde que isso te faça feliz!”.

Pai.. eu vi o clipe do 50cent, e descobri que meu lance é prostituição de luxo!”, “Nossa filha.. que estranho! Mas se você acha que isso vai te deixar feliz...”

Pedrinho deu um tiro na cabeça!!”, “Quem sabe agora ele esta feliz...”

A publicidade e a filosofia rasteira garantem a promulgação desta praga liberal. Uma praga que destrói o senso de obrigação e dilui a amplitude da situação humana a seu mínimo denominador comum: a mediocridade da subsistência.

Afasta a necessidade de diálogo e aumenta o poder do monólogo. Uma pessoa pode ser uma cega idiota fanática e passar ilesa pelo senso crítico, desde que se mostre contente com sua idiotice.

A felicidade desqualifica a briga. O desafio. A missão. A idéia. A ganância.

Qualquer força motora que te leva para frente é alimentada por um senso de insatisfação. Então caminhar não é se contentar. Caminhar é com perninha doendo e dedinho sangrando e tênis rasgado. Fedendo.

Então abaixo a felicidade.
Vamos nos concentrar no caminho da realização, do correto, do espetacular, do memorável.

Sunday, May 27, 2007

Aquecimento Global

Eu culpo as vacas peidando.
Ja passou da hora de começarmos a nos alimentar do verdadeiro substrato de proteínas excedente e renovável. Os humanos.
Menos carros + menos vacas = mundo bonzinho.. não é essa a conta?
E para escolher quem vai para a faca, basta bater os 11 digitos finais da mega-sena com o CPF.

Sesqui

São cinco segundos antes da cena começar. Os atores estão em seus lugares, e o roteirista olha nervoso da segunda fileira. O último ensaio vestido se provou um fracasso, e para adicionar ao nervosismo, o cara da Folha ia estar la naquela noite. Logo na estreia. O texto meio violento podia afastar os aposentados, que eram mais da metade da plateia. Graças a última política cultural social mecenas dos desocupados e desajustados e de tempo livre e sem ofício em geral. Deus abençoe o SESC.

São cinco segundos ainda, e eu olho para meus sapatos, desproporcionalmente grandes e adultos demais para mim. Eu não pareço um oficial da Polícia... eu pareço uma versão de ultima hora - sobra de guarda-roupa do almoxarifado do sbt. Eu pareço um coadjuvante da praça é nossa.... isso não vai dar certo.

O que eu estava pensando? Qual foi a grande idéia ? Idéias de filmes e sucessos. Acho que estamos sendo criados pelas televisões e não por nossos pais. Ninguém quer trabalhar. Todo mundo quer ser famoso. Pelados e famosos. Vamos impressionar nossos antepassados : Chico Anysio e a vaca da Mara Maravilha.

Cara... eu to falando... esse lance de ator não vinga. Eu odeio maconha.

O cara que vai interpretar o "preso político" esta chorando. Sentado na cadeirinha no meio do palco, atras das cortinas ainda, o filho da puta esta chorando e se concentrando. Entrando no personagem. HUAHUAHUAHUA... puta vontade de rir da cara dele. O pai dele é desembargador em Goiás.. vai entender,,,

Eu sei o que vai acontecer.. eu vou topeçar no meu sapatão de palhaço e cair de cara no colo do prisioneiro político. Ato 1, cena 1 - Sr. Esquecionomedopersonagem.. voce é suspeito de atividades subversivas.. que tal uma chupeta de um ator incompetente? (fecha a cortina)....HUAHUAHUAHAUHUAHUAHAU... cara vai ser foda.

A cortina esta abrindo, e da coxia eu vejo a luz inundando o palco... Eu entro e não tropeço. Olho para o cara amarrado naquela cadeirinha e penso "Bem que vc ia gostar da chupetinha, hein seu viado maconheiro", mas falo minha fala sem nenhum erro gramatical e nenhuma emoção sequer.

Deus abençoai os medíocres.

Monday, January 01, 2007

appendix

Na verdade, os chineses acham que o porco é um "animal de gosto impecável, generoso e perfeccionista".

em 2007, eu gostria que os chineses largassem a mão de serem tão esquisitos.

2007

É o ano do Porco no horóscopo chinês.

Começamos mal. Pig, pig, pig, pig

Wednesday, December 27, 2006

ano novo

beijos para todo mundo que me ajudou neste ano horrível (ja é o terceiro seguido)....

Que os quebrantos espedacem nas areias incertas do futuro.

E lembre-se !!! Voce esta um ano mais próximo do seu ultimo ano!!

Wednesday, July 26, 2006

texto maluco #1

Ato 1 - Sobe a cortina. No palco, apenas dois sapatos de boneca pretos e um laço de fita grande e branco como as nuvens. Entra pela coxia esquerda um homem vestido de coelho. Ensangüentado e pulando com raiva.. Ele tem as presas sujas de sangue, e esta inteiro borrado de lama. Para a cada salto olha para coxia de onde veio e solta uma gargalhada insana. Depois de um tempo para e encara a audiência.

COELHO (Olha para platéia com atenção) - Puta merda !!! ... comi a Alice!!!!

Fecha o pano.

batongaville

Quase atropelei um monte de ciclistas que passavam na Av. Brasil com uma porra de uma bandeira do Delfin Neto presa na garupa.
Isso ai molequada, 15 reais para subir e descer a Av. Brasil numa bicileta com uma foto do Delfin Neto com as mangas da camisa arriada, e um sorriso forçado. Tipo, "Ei, sr. Jabba the Hut, essa é para mostrar para o Imperador.. vamos la... você consegue... isso.. ta bonito!"

E dai vão ter as meninas que põe as bandeiras no colo e ficam agitando de um lado para o outro. Sempre conversando , de boné, e parecendo entediadas como se não houvesse fim naquele suplício. Meninas máquina, parecem. Se a Ford cuidasse das eleições, o pessoal ja tinha inventado o "Bandeira Agitator 2.0" mecânico e automatizado. 24 horas por dia, sem cansar nem suar. Quiosques por toda a cidade.

Wednesday, July 19, 2006

A Arte de Dormir com Cadáveres

A vida é dura para um necrófilo.
Só de suborno vai 5oo paus por mês.
Sem contar o cheiro que fica nas roupas.. só Vanish faz passar.

Esse post é um oferecimento de Vanish Poder O2

emprego

Preciso de um emprego. Perto de casa, que pague mais de mil reias, que eu saia antes do sol se pôr e que tenha café de bule, não aquelas merdas de máquina de expresso.

Eu olhei numa xícara de café vazia e vi a face de Jesus na borra do café.
Eu olhei uma folha de salsinha em cima da pia e podia jurar que Jânio Quadros olhava para mim.
Eu espremi uma espinha que bateu no espelho e ficou com o jeitão do Bozo.
Ontem a noite, eu vi o fantasma do Padre Anchieta se afogando no meu miojo.

Acho que preciso de óculos.

para minha cachorra

Ela espreita contra o vento
E aguarda o momento

Em que sua presa, desapercebida,
Salta do armário da cozinha
E cai no seu prato de comida

sociologia para brutos

No Brasil a guerra se faz necessária.
Desagradável mas inevitável.
Ainda tem que morrer gente branca para caralho para esse país se levar a sério.

menos

menos é mais. sempre.

Memory Overflow

WITH Mymemory{
SELECT * WHERE "qualidade" == bad;
SELECT * WHERE "utilizado" == null;
SELECT * WHERE "origem" == midia;
DELETE SELECTED;
}

bau

Dentro do bau tem uma caixa, e dentro da caixa um envelope com uma carta escrita em código. Quebrando o código e lendo a carta, você consegue descobrir o esconderijo secreto da chave para o baú.

fogo

O mundo acaba em fogo.
Parece que é meio padrão esta história, então quando o negócio aconteceu, até que achei meio óbvio.
Eu só não achei que ia demorar tanto.
Deus é um puto sádico porque ele não sofre influência do tempo.
Ser fervido pelo sol, tudo bem. Mas demorar cerca de 3 anos até morrer o último humano não precisava. Passou da linha.
Cheguei no céu e disse isso para ele pessoalmente. Ele me olhou e deu uma risada bem alta.
Mano, se eu não tivesse acorrentado eu ia quebrar aqueles dentes brancos um por um.

Thursday, June 08, 2006

Magia

Teve uma vez que estava tão concentrado em tentar provocar um enfarto no meu professor de história da arte que eu consegui ler o pensamento dele. Foi bizarro, porque pensamentos não são historinhas lineares, filtradas por linguagem e blablas,,, são coisas cruas e duras e perigosas, e por um momento eu esqueci de mim, esqueci da minha consciência, e tava la dentro, na cabeça do Seu Gilberto.

Foi um instante, e nesse intante ele se preocupava com o futuro do seu pai idoso, percebia que esses alunos eram burros e apáticos, despia mentalmente uma garota da segunda fila, e sonhava em vender a casa, matar o filho e virar motoqueiro.

Quando eu sai do transe, e me encontrei suando no meio da sala, olhei bem fundo para os olhos dele e o compreendi inteiramente. Sem brincadeira, quando eu voltei, eu lembrava das sensações todas, e sendo eu outra pessoa que não o Sr. Gilberto, eu pude compreender uma outra pessoa totalmente...

O problema foi o enfarto depois... dai ficou chato...

titanic

Tem uma mulher misteriosa que mora no sétimo andar no apartamento da frente. Todo dia, com uma pontualidade britânica, ela se veste como se fosse a ultima viagem do Expresso Oriente, toda paramentada de jóias e plumas, e com o garbo e o máximo de porte possível para uma senhora de 70 anos que tenta se equilibrar com um salto agulinha, e engatinha debaixo da cama.

Ela desaperece inteira embaixo da sombra do colchão e até o outro dia de manhã é só isso que se vê no quarto. O tempo que eu ja perdi observando aquele quarto vazio vai além do que eu gostaria de lembrar.

Ela reaparece logo que o sol começa a nascer, aparentemente bêbada, com o sapato na mão e o batom borrado. E uma vez, quando estava inverno e realmente quieto, coisa rara em São Paulo, eu acho que escutei uma música vindo lá de dentro.

Monday, June 05, 2006

Sobre a espada

A Espada continuava encrustada na pedra, e o reino continuava sem rei. Milhares ja tinham tentado, ao ponto que os arredores da pedra se tornavam cada vez mais parecidos com uma cidade do que o descampado místico onde os druidas aguardavam a consumação da profecia.

Todo dia, de cavaleiros de reinos distantes à trovadores bêbados, uma fila se formava e tentava arrancar a droga da espada. Nem era uma espada tão bonita assim, mas a Inglaterra parecia consumida pela espera de seu Arthur. Isso ja durava mais de 50 anos.

Foi quando chegou um mercador Vienense na vila dos druidas. Ele era acompanhado por um mouro que trazia consigo um pó preto que cheirava enxofre, e disse que iria arrancar a espada dali. Ele demonstrou seu potencial escolhendo uma pedra similar mais distante, compactando esse pó em porções estratégicas e acendendo trilhas de corda com querosene de forma habilidosa e simultânea. Sem dúvida e de forma instantânea a pedra voou pelos ares e caiu em pedaços pequenos e distantes.

Os druidas se engasgaram e as crianças assustadas dispararm para longe dali, se esconder nas barras das saias de mães que olhavam boquiabaertas e pensavam "Agora vai".

Ficou marcado para a semana seguinte a tentativa do mercador italiano de se tornar o rei da Inglaterra. A expectativa se espalhou de forma rápida e certeira, e o boato ja estava bem grande no começo da semana seguinte. Nem a fuga do assistente mouro, numa madrugada, pareceu desanimar a turba. Ele tinha deixado bastante pó preto atrás de si.

No grande dia, o ducado estava em massa. Místicos e curiosos se aglomerevam atrás da corda de proteção, enquanto o mercador organizava sua equipe de cinco homens. O processo, perto do final, ficou silenciosos e laborioso, e demorou uma tarde inteira. O próprio duqeue estava presente. Nao arredou o pé da primeira fila.

Ao final da tarde, com um sol laranja e fraco, o mercador olhava atentamente as pontas dos fios embebidos em óleo que segurava em sua mão, e a tocha presa no chão. Tinha preparado um discurso, mas não se sentia com vontade de lê-lo. Parecia que ao invés de sua euforia que o acompanhou por toda a empreitada, o mercador começava a perceber que havia alguma coisa coisa bastante errada. Parecia que a espada simples e enferrujada tentava dizer alguma coisa. Sobre meios, objetivos e o futuro. Uma série de figuras. Mas a turba começou a se inquietar, e alguns mais ébrios ja ensaiavam um grito de "fogo".

O mercador chacoalhou suas superstições e acendeu o pavio. Nunca na história da Inglaterra um fio queimou tão devagar. Pareciam horas.. até que o fogo atingiu simultaneamente vinte nichos cheios de pólvora.

A pedra pareceu tremer por instante. E depois deixou de existir. Milhares de pedaços voaram por cima da multidão, machucando muitos... o barulho estrondoso foi ouvido à milhas dali, e por meses nenhum caçador conseguiu achar uma pássaro sequer nas redondezas.

O povo que tinha abaixado instintivamente calmamente se levantou e com esparança olhava a poeira abaixar. O mercador percebeu antes de todos. Tateava deseperado o chão.. e quando a multidão começava a aplaudir o feito, o mercador ja chorava copiosamente. Procurava a espada, mas só achava pequenos fragmentos de metal retorcido. Parte da jóia enrustada em seu cabo ele achou embaixo de um monte de couro queimado. Perdida. A espada do rei estava perdida. Imprestável. Quando a multidão perecebeu o que acontecera, todos começaram instantaneamente a procurar juntos. Sabiam que fora perdida uma coisa que não era para ser perdida. E procuraram por horas a fio.

Ninguem conseguiu achar a espada. Os fragmentos recolhidos não enchiam nem a palma de uma mão. A profecia não foi completa e os druidas se recolheram.

Eventualmente o duque contratou o mercador para trabalhar no desenvolvimento deste pó preto. O mercador capturou um barco de sábios orientais, e junto com o Duque engajou uma guerra sangrenta pelo controle de outros ducados. Com o pó explodindo os muros ficou fácil. O duque matou os druidas a noite e as bruxas de dia. Após sete anos da explosão da espada, ele proclamou seu filho soberano da Inglaterra, e a história da espada foi esquecida.

Tuesday, May 30, 2006

WishList

Eu quero o tempo todo que eu gastei vendo filmes de volta.
Eu quero pegar o publicitário que me garantiu que eu ia ser feliz e mijar no pescoço decepado dele.
Eu quero ver fotos do enterro de todas as supermodelos.
Eu não quero saber o tamanho do pinto do Bruce Willis.
Eu nãp quero saber o gosto do peito da Ana Paula Arósio.
Eu quero uma vida só minha e de quem eu conheço.
Eu tenho medo desses sonhos embutidos, contra minha vontade, que me pertubam o sono.
Eu quero existir desprovido de expectativa.
Quero sonhar com goiabas e não com sucesso.
Um almoço quente que cheire à comida.
Perceber que mereço tudo que tenho, e tenho muito.
E o que não tenho talvez não precise.
Que a vida é móvel.
Que a alternativa é viável.
Que a rota é alternativa.
Que caixão não tem gaveta, não tem armário, não tem porta-retrato.
Que essa vida é nossa, e que o mundo é uma noção de tempo.

E que o tempo é agora.

Bons sonhos.
Que sejam os seus.

Friday, May 12, 2006

Aew!

Nasceu um pé de feijão gigante no meu quintal!
Ele é do calibre de um boi, e cada folha serve perfeitamente como o degrau de uma escada leguminosa rumo ao céu. Estou levando uma mochila, um canivete, uma identidade falsa e a bombinha de asma.

Vou subir la hoje a noite, depois eu escrevo como que foi.
Eu fiz uma máquina que me permite parar o tempo. Enquanto as pessoas e as leis da física se encontram congeladas eu perambulo pela cidade. Eu posso estar ai nesse instante, do seu lado, e você nunca ia ficar sabendo. Eu mexo em corrependência, vejo as fotos, aperto a bunda da sua mina e mijo no feijão.
Mas ja perdeu a graça. Vou vender no mercadolivre, ou trocar por um aquário.

Friday, May 05, 2006

Tinha um guarda chuva quebrado rolando na sarjeta um dia desses. Descendo a Teodoro, em frente à padaria. O guarda-chuva ia descendo com a enxurrada, e eu fumando em baixo do toldinho. A chuva ja tinha enfraquecido, mas a enxurrada era monstruosa. O guarda-chuva atravessou o cruzamento da capote e parou na frente da loja de feragens, provocando um turbilhão de água em cima da calçada, molhando o sapato de uma senhora que ficou puta. Ela devia ter uns sessenta anos, e andava devagar, tentando esconder a bolsa da chuva. E ficou puta de verdade. Andou até a enxurrada, molhando as pernas e as meias, olhando pro guarda-chuva que nem um cão de guarda preso por muito tempo, abaixou, com certa dificuldade e desajeitada, pegou o guarda-chuva quebrado e jogou no meio da rua. Jogou com raiva, jogou sem ver nada, quase num ônibus que tava descendo. Ela virou e voltou pelo caminho que estava vindo. Deu a impressão que ela tinha saído de casa só para jogar o guarda-chuva longe.

Thursday, April 27, 2006

Quando a casa caí

Eu via todo mundo se transformando em ratos. Nunca, eu pensei comigo mesmo, eu me sujeitaria a tamanha vergonha. Sou um homem. Não sou um rato. Eles se encolhiam e diminuiam e em sua mesquinahria atravessavam o pequeno buraco por onde passa o ar condicionado do prédio.
Foi quando eu senti o calor do fogo atras da porta, e a fumaça começou a invadir a sala.
Como eles viraram ratos?! Precisva virar um rato, mas os ratos ja tinham ido embora.
O buraco do ar-condicionado é grande demais para mim. Os bombeiros gritam da rua, mas eu não consigo ouvir.

Monday, April 24, 2006

musica 1

Me pagaram para fazer
Me disseram pra largar
Me falaram que era hora de parar
Me cobraram por falar

Mas eu vou ouvindo,
vou ouvindo, vou ouvindo e esquecendo.

Mas diz ai, se estão tão certos,
Qual o nome do monstro do seu armário?
Quantas estrelas voce ve da sua janela?
Quem matou Galileu?
E por quem voce vai chorar na hora de morrer?

Mas eu vou andando,
quebrado, sorrindo e vivendo.

Wednesday, April 19, 2006

menos

Estava escuro e eu abri a janela. A noite veio e eu liguei a luz. O silencio incomodou e eu pus uma musica. A musica era triste e eu abri um vinho. Eu não tinha o que fazer e acendi um cigarro. Eu tinha um espelho no banheiro que eu ja quebrei.

E mesmo fazendo 120 na bandeirantes eu olho pro lado e o motorista sou eu.

inserir texto

Eu ia ser cínico.. eu queria ser ácido e cínico e esperto. Demonstra inteligência. Mas eu ando uma criança que só quer brincar e abraçar todo mundo. Eu queria xingar, mas só consigo nutrir apreensão. Pelo tempo que todo mundo perde sendo tão esperto. Sendo tão individual e tão esperto. Cansei de ser o colunista do erro e da apreensão. Quero explorar o continente das coisas que dão certo.
Parece que eu estou sempre esperando o fim das coisas para dizer "bem que eu disse", ou "eu ja sabia". Um segredo rápido, para todos os espertos. Eu não sabia merda nenhuma. E só disse merda.

Tuesday, April 18, 2006

pascoa

Se o ano 33DC fosse hoje, no boa noite brasil a manchete ia ser:

"Judeu Zumbi Some da Tumba e Aterroriza a Galiléia!"

Monday, April 17, 2006

são paulo II

Tem um pé de alface estragado em cima da mesa.
Tem um chocolate meio comido.
Tem um cheiro de laranja velha.
Uma vela pelo fim.
A luz ainda não voltou.
São tres dias de eclipse e a tv ja esta fora do ar.
Eu tinha aguentado tudo até agora. Os sumiços, as doenças, os motins, os malditos e intermináveis motins.
Eu tive que matar um homem que tentou entrar aqui.
A escuridão la fora é selvagem, e o frio entra nos meus ossos como uma anestesia líquida de ultima geração. Willian Bonner chorou no ar anteontem.

Sem tv não vai dar. Vou pegar uma faca e caçar comida na Pompéia.

Quem sabe o sol volta. Dai vai ser uma festa. Ah, meu irmão, quando o sol voltar vai ser a festa das festas.

internet é legal

antes disso... achei na internet.. acho que foi em 2003... fiquei feliz.

http://www.evirt.com.br/contos/bruno01.htm

fim da primeira parte

Esses eram os textos dos dois anos passados. Agora é só coisa nova.

Monday, April 10, 2006

bossa

Foda-se a aura, foda-se o karma
eu vou vender meu violão
e comprar uma arma

Eu perguntei pro homem de branco
e as crianças que morrem dormindo?
E o homem respondeu calado:
Os erros dos homens não tem lugar nessa bossa.

Paranaguá - SP

Das várias histórias que o meu avô me contou sobre as missões de exploradores que fundaram a cidade de Paranaguá, talvez esta seja a que mais me impressionou. Eu já não era criança, mas também não era grande o suficiente para pensar em meu avô falando algumas das obscenidades que eu tento repetir agora.

Dizem que em 1790 havia um caminho de terra que cortava da cidade de Campinas até a fronteira com o Estado de Minas Gerais. Este caminho na mata começou a ficar largo e movimentado na proporção em que mais fazendas de café se instalvam em suas margens. Entre um ponto e outro, perto de um fio de água desimportante chamado Paranaguá, que corria modesto mas constante em direção ao oeste, um assentamento de burros de carga foi talhado na mata. Uma clareira forçada, à menos de 50 metros de uma das curvas do rio, e mais uns 50 metros até a estrada. Na clareira instalaram uns cochos e uma cabana modesta para vigília dos burros que dormiam ali. Tudo modesto, pois os grandes carregamentos simplesmente podiam andar mais entre as duas vilas vizinhas.A clareira do córrego logo virou um ponto para todas as cargas de pessoas que não tinhmam condições de manter carroças puxadas por cavalos, ou condição de trazer mantimento seco o suficiente para puxar mais de um dia seguido na estrada.
Isto não foi meu avô que disse, mas um resumo do que aprendi na escola. Na escola eu aprendi também que um caçador chamado Quino Paez que tinha vindo do sul começou a fazer da clareira um ponto de negócios entre pequenos comerciantes. Logo uma pousada e um bar surgiram, e a cidade começou a florescer modestamente, se afastando do córrego e se afastando da estrada.

Este salto lógico entre um monte de toco para amarrar burro e uma cidade de comércio parecia normal no primeiro grau, mas meu avô não seria enganado. Não ele. Ele sabia a verdade. Na verdade, como vim a perceber depois, quase todo mundo sabia da verdade, e eu acho se você ja tivesse se sentado para fumar um cigarro e tomar uma pinga (e essa era a combinação que indicava um caráter confiável quando meu avô era jovem), você também saberia.

Existia um caçador chamado Quino Paez, um argentino desdentado, e sim, ele veio para estas bandas e sem querer começou uma cidade. Agora meu avô olhava para mim e dizia “... mas caçar o que aqui? Café?!” As fazendas tinham afugentado qualquer caça valiosa de um raio de mais de um dia de viagem. Claro que um esfomeado podia achar um veado perdido nas fronteiras entre as fazendas, mas isto não era profissão, e com certeza vendendo veado não se formava uma cidade (embora as informações sejam conflitantes a respeito disso).

Então meu avô olhava para um copo americano de tamanho diminuto e dizia que as únicas coisas que fariam um cara parar no meio do nada e pousar gastando dinheiro para isto eram três : Mulher, bebida e mais dinheiro. Quino Paez não era dono de prostíbulo, e pelo jeito das coisas nem mesmo a mais generosa matrona gastaria seu tempo armando uma cabana ao lado de cinquenta jegues, burros e mulas.

Bebida era um cenário mais possível. Um alambique clandestino não era tão difícil de constuir, e com tanta gente carregando um pouco de cana para lá e para cá, é bem possível que o casebre de Quino tivesse sua própria receita para aguardente. Então talvez Quino tivesse um bar. Algo para beber, um espaço para dormir e um preço modesto. Mas havia incontáveis paradas de estrada com este propósito pelo Brasil afora, e não foram muitas que viraram cidades, então qual era a diferença?

- “Bosta!”. Categórico meu avô olhava para mim com olhos um pouco mais fundos que o normal e apontava para toda sua volta. “Bosta para todo mundo, tudo isto aqui, do prédio alto até a cruz de ferro da Matriz, tudo com dinheiro de merda”

Isto eles não falavam na escola.

O homem vêm usando fezes de animais para melhorar suas colheitas desde quase o começo da agricultura. Isto se fazia às margens do Nilo, nos vinhedos da França, nos milharais do Norte e em todo pomar e jardim. Quino, se dizia, na verdade tinha aberto um bar de pinga para dezenas de tocadores de mulas de produtos variados. Voce consegue imaginar a sujeira que cinquenta animais faziam numa área de um quarteirão? -“Era muita merda”. Longe o suficiente do riacho para que não compensasse jogar lá. Talvez até tivessem jogado. Na época mais seca, embora até meu avô fosse ressabiado com esta parte da história, diziam que depois de descarregar o montante de dois dias de esterco no córrego, ele simplesmente parou e represou, inundando a mata ao lado e escorrendo pela estrada, e naquela época um tocador de cavalo de uma das poderosas fazendas de café da região tinha jeitos bastante criativos de intimidar o paspalho que tinha lotado o rio de bosta.

Não se sabe quem e como o negócio começou, mas dizem que um fazendeiro ao ver uma pilha descomunal de bosta sugeriu que se Quino quisesse, ele poderia se livrar daquela sujeira toda. Quino, que aparentemente não era tão paspalho assim, juntou dois com dois e pôs um preço, que na cabeça dele era exorbitante. O fazendeiro levou pela metade do preço. Quino tinha ganho o equivalente à exorbitante dividido por dois, o que para ele, era muito.
Logo Quino olhava por sua janela à noite, e ao invés de mulas ele via máquinas de dinheiro. Ele começou a alimentar os animais com comidas especiais, pesadas. Muita comida. Não bastou muito até ele começar a misturar um laxante no meio das pedras de sal, e quanto mais fedia seu quintal, mas Quino sorria.

Neste mundo não existe um segredo sequer, e depois de um tempo frequentadores mais assíduos começaram a jogar umas perguntas sobre como o senhor Quino tinha arranjado dinheiro para comprar aquele colchão da cidade grande. Quino sentiu a situação e começou a dar hospedagem de graça para quem trouxesse mais de cinco animais graúdos, ou sete porcos, ou vinte galinhas numa gaiola trançada que não tivesse piso forrado. Com a possibilidade de dormir bem e de graça, comerciantes começaram a viajar com animais extras para alcançar a cota de Quino, e antes da história notar aquela bagunça, estava tudo escancarado. Agora existia um sistema para quela merda toda. Catalogado, separado, pesado e embalado, o esterco de Paranaguá ganhou fama regional. O bar se estendeu a um hotel. Os fazendeiros mandavam buscar quantidades exorbitantes de estrume, e a nata dos capitães de comércio paravam para beber e levar carroças cheias, não sem antes deixar sua própria contribuição. Até o conteúdo das casinhas e fossas era embalado, embora para o pouco de bom gosto que resta a esta narrativa, eu escolho não revelar que parte essencial de nossa agroindústria buscava avidamente esta espécie de mercadoria.

Com o hotel veio o divertimento, e com o dinheiro dos compradores de esterco as praticantes da mais antiga profissão do mundo aprenderam a esquecer do cheiro de merda e armaram sua “casa de danças”. “Aquela merda cheirava melhor que muitos dos clientes” garantia meu avô, numa tentativa frustrada de amenizar a condição toda.

Logo os apanhadores de estrume tiveram filhos, e dos filhos dos apanhadores de estrume veio a necessidade de manter um pouco de ordem. Logo um padre veio e uma capela foi erguida com o dinheiro de fertilizante. Na beira da clareira novos caminhos haviam sido cortados, armazéns se ergueram, e um tímido comércio floresceu. E então um Quino Paez velho e elegante parou no centro da antiga clareira, cercado de mulas com diarréia e proclamou. “Amigos, viemos de muito longe. Olho para os lados e vejo que nosso trabalho rendeu frutos, e este frutos formaram uma comunidade. Que nenhum homem e mulher de agora em diante tenha vergonha de dizer que nasceu na curva do Paranaguá!”. Embora meu avô acreditasse que ele na verdade não tinha dito nada disso, e que qualquer grupo de pessoas cercados de um bar, um puteiro e uma igreja sabiam que aquilo já era uma cidade, e aquela cidade já tinha nome.

Dizem que Quino faleceu em seguida, e na praça central um humilde monumento de pedra foi erguido, e os coletores de estrume tranferiram seu negócio para uma região mais acima na cidade, mas, por um breve momento, me vinha a imagem na cabeça de um grupo de pessoas de bem, vestidas com roupa de domingo, caminhando até a igreja com botas altas para andar no meio daquela merda toda.

Wednesday, March 29, 2006

harmonia é frequência

Um velho alfaiate, ja cansado e usado, olha para suas duas mãos que não param de tremer. Ele pega o bule de chá, e mal consegue colocar na xícara em cima da mesa. Ele se cortou feio quando barbeava, e desde então parou de fazer a barba. Suas mãos descontroladas tem dificuldade para abotoar sua camisa. O alfaiate se levanta e anda até sua mesa, e com dificuldade carrega os panos.

Ele senta na sua bancada com os pedaços de pano, e num movimento contínuo e perfeito, atravessa a linha no buraco da agulha. Ele ri de si mesmo. Suas mãos tremem, mas elas tremem juntas em perfeita sintonia.

Moral - De vez em quando, o problema é do mundo.

Cowboys

Tem uma cena de um sonho que não é meu. É de uma pessoa que eu conheci em Agrabah que tinha comprado um canário de uma moça da Penthouse que voou para lá tentar ficar noiva do sultão. A cena do sonho tambem não é dele, nem dela, nem do Sultão.

No sonho o sonhador esta acordado depois de dormir.Nessa cena o sonhador sou eu, mas é por pura casualidade. Quando o sonho for seu, e será, voce vai ser o sonhador.

O cara percebe que um mar extenso de sangue coagulado fervilha tres centimetros abaixo de seus pés. O mar, este mar, ferve a uma temperatura insuportável, e o cheiro de ferro é tão intenso que o sonhador tenta tapar o nariz, e tosse. O cara percebe a sorte do sangue estar coagulado, e percebe que as bolhas que quebram a película aparecem por sorte ou azar em pontos quaisquer. O sonhador agora tem pressa de sair. Mas não pode. Ele flutua, mas não sabe voar. Ele se vira, mas é tudo o que faz. Nos horizontes, apenas o céu negro da falta de ar, o vermelho-sangue do sangue, e o cheiro de ferro.

E do horizonte vem em velocidade uma nau. Esta nave de madeira corta o sangue coagulado e é timonada solitariamente por uma figura que parece ter apenas um braço fundido ao timão. A figura não olha nada. As velas do barco estão baixas, e o sonhador percebe que o barco esta parado, e que é ele, o sonhador em seu mundo do mar de sangue, que rodam em direção ao encontro.

O mundo para de girar em um abrupto momento.

A nau reboca uma draga. A draga é sustentada por grandes tambores de madeira e de um cano chupa o conteúdo do oceano vermelho e joga em seu chão. O sangue bate numa pessoa presa ao chão da draga e escorre em desperdício mudo de volta ao mar. No chão desta balsa esta você, que comprou este sonho, deitada de joelhos dobrados numa esteira bordada e verde. Quando o sonho for seu, voce tambem verá. O cara que sonha, que sou eu, olha para voce estendida no chão e ve que voce esta grávida de todas as coisas novas. Mas o bebe não pode sair porque a draga continua a mirar seu jato de imundíce nos meio de seus joelhos. Basta a mim descer e mover voce a uns poucos centímetros para sua direita, que tudo vai ficar bem.

E eu saio deste mundo de sangue e acordo.E quando acordo estou renovado de toda uma nova forma. Quero continuar a fazer o bem amanhã. E de repente quando durmo um jato de sangue fervente me acerta no meio dos joelhos, e eu vejo o céu negro parado sobre mim, e um mundo de sangue rodando embaixo do barco. E olho para voce parado impotente no céu. E quando acordo, te maldigo baixinho e olho com calma para o belo canário numa gaiola bordada de ouro deixado por Alguém aos pés de minha cama. Ele canta sobre a morte das coisas vivas num futuro próximo. Eu tento não dormir mais. E não consigo.

Dai eu te vendo este canário. E voce é agora o cara.

Tuesday, March 28, 2006

Reformar ou Construir

O que é pior, reformar ou construir? Respondendo essa direito, você tem direito de comprar uma granada.

Falou Pallhofi

A crise política que se abateu (e se arrasta) sobre o Brasil me dá vontade de ver futebol.
Vai Nílmar! Esse moleque promete.

Legal

Legal é andar num shopping segurando um isqueiro como se fosse uma arma dentro do bolso de um moletom e encarar os seguranças.

Friday, March 24, 2006

tonight

Shows de rock :
A alternativa viável à terra do nunca. Amo de paixão

RockOn

silêncio

-Que silêncio é esse?
-É seu coração parando de bater.

Thursday, March 23, 2006

os votos

Selei um acordo com um gênio persa, mas como é da natureza dos gênios persas, ele me enfetiçou para que eu esquecesse quase todo o ocorrido. Eu lembro dele perguntando o que eu queria. Eu lembro dele dizendo que ia realizar meu desejo. Mas não lembro o que eu desejei.
E la embaixo as pessoas continuam andando na Faria Lima.

tratando

um pires de remédio
um prato de comida
o que for necessário.

a palavra da cantora
um cara e coroa
o que for necessário.

um pedido de desculpas
um transplante de medula
Deus perdoa, porque não?
O que for preciso
para viver para sempre.

Um livro, um filho, uma árvore e um amigo.

Deus perdoa mas não esquece.

Schulz I

"Eu costumava tentar encarar um dia de cada vez, mas agora minha filosofia mudou :
reduzi para meio dia de cada vez!"

Charlie Brown.

Tuesday, March 21, 2006

São Paulo I

Num guardanapo de bar que me foi passado pelo garçom, apenas um telefone.
Chegando em casa eu ligo.
Um bipe de secretária sem maiores informações.
Eu desligo. Ligo de novo e fico quieto.
Depois de trinta e dois segundos a máquina desliga na minha cara.
Eu ligo em seguida e digo meu nome.
E saio.

No bar outro guardanapo me passado pelo garçom com outro número.
Eu ligo.
Eu deixo meu nome completo e endereço.
Eu olho o telefone por longas horas.
Nada.

E vou de bar em bar pegando outros guardanapos e encho mil secretárias eletrônicas e serviços de mensagem com meu nome, meu telefone, meu endereço, meu CEP, meu numero do certificado de reservista, titulo eleitoral, senha do cartão, agencia e conta, email, senha do e-mail, cadastro das casas bahia e no que eu penso quando estou no banheiro.

Fechado agora desligo meu telefone e jogo janela afora.
Queimo todos meu cartões e minhas cartas.
Quebro a mobília.
Escrevo meu novo nome em milhares de etiquetas que colo do chão ao teto em minha casa.
Compro um telefone novo com secretária.

Perdido e quebrado saio de novo aos bares, e invisível em meu novo eu, escolho um perdedor solitário. Escrevo meu novo número num guardanapo, aponto o infeliz e dou meu ultimo dinheiro ao garçom.

Rumo ao rio, e penso no meu apartamento, vazio, e no telefone tocando.

nissim lama

Não tente dizer que tudo esta certo.
Tente dizer que tudo esta do jeito que era para estar.

Sunday, March 19, 2006

O incrível suicidio da menina da escola preparatória

Encontra-se a cena de tal forma, que a garota que esta parada sobre minha cabeça não consegue olhar para lugar nenhum além do céu. Este é o instante. Nunca soube o nome da garota e como vou morrer agora, acho que não saberei. Não sei seu nome e não sei os motivos que levaram-na a pular da janela da escola.

Um pensamento me diverte enquanto meus lentos músculos tentam se esticar para desviar: e se ela não morrer por que eu amorteci a queda? Isso ia ser um barato, de incompreendida suicida para gênio homicida. Quem sabe com a atenção toda que ela ia receber ela fosse descobrir um pouco de apreciação e respeito, e às minhas custas, voltar a sorrir.

Cuidado com a menina louca da escola preparatória. Se voce lhe faltar com a palavra ela pula em cima de você.

Porque olhando para cima? Nesta cena, como ja disse, eu a vejo de costas, cabelos soltos voando para cima, e sua nuca. Que espécie de covarde miserável me pula de um prédio e olha para cima? Corrijo. FAZ o esforço de se virar no ar para que possa olhar o céu. Será que é um sinal de bravura? Não conseguir calcular o momento final? A montanha russa é mais emocionante de olhos fechados ou abertos? Estaria ela facilitando sua ascenção ao céu dos anjos? Dando as costas à terra, dando as costas ao inferno.

Sua cabeça é enorme. Parada aqui, logo acima da minha, eu percebo. Uma bela cabeça grande e dura. A mãe de todos os cocos. Filha da puta. plef. O barulho é de uma melancia.

Gatinhos

Eu tava no centro e essa mina virou na minha direção com dois olhos inchados de tanto chorar e começou a vomitar gatinhos. Eram vários, e de várias cores, e saíram se espalhando pelas pernas das pessoas amedrontadas. Enquanto as pessoas corriam dos gatos, da menina e de umas das outras, eu observava. Sua garganta inchada parecia a de um sapo, e maioria dos seus dentes estavam quebrados. Em certo ponto ela tossiu tres gatos de uma vez e desmaiou, ou morreu. Eu nunca vou saber. Os gatos saíam imundos de dentro da menina desacordada e subiam pelos prédios, corriam pelas ruas e pulavam nas árvores. Eles eram tão pequenos. Eles eram centenas.

Pareciam perdidos, mas apenas pareciam. Logo que o último gato saiu de dentro da garota, eles pararam sua corrida em um uníssono incômodo, sentaram em sua pequenas esqueléticas patas traseiras e obervaram a multidão. Uma senhora distraída com as compras foi a primeira. Dois gatos saltaram do pórtico da prédio antigo, cravaram as unhas em cabelo, pele, roupas e óculos. Ela gritou de medo e de susto. Foi o que bastou. Os dois gatos entraram rápidos por sua boca, e num instante de confusão, ela levou as mãos à garganta, e tentou berrar, mas não se ouviu nada. A multidão confusa esolheu este momento para hesitar por uma fração de segundo. Foi um momento apenas, antes de mais correria. Um momento de silêncio.Daí os gatos atacaram. Eu não cheguei nem a ver a cor do que entrou na minha boca.

Poucos escaparam dos gatos aquele dia, a situação de extendeu por várias horas e mais algumas regiões da cidade. Hospitais foram interditados e a guarda nacional do exército isolou em confinamento praticamente a cidade inteira. Um multirão de médicos e cientistas tenta comprender até hoje o que aconteceu. Eu ja desisti dos testes. Outras pessoas não. Em vão os cientistas procuram vestígios dentro dos milhares que engoliram algum gato aquele dia. Quando o primeiro morreu, alguns dias depois, em circustâncias não relacionadas, a comunidade não escondeu o alívio. Morreu o primeiro! Agora sabemos que este gatos vão todos nos matar! Mas o tempo passou, e nada aconteceu.

Eu faço um checkup por ano, e a minha ficha vem assinalada como : "supostamente infectado no incidente de xx/xx". Minha saúde é perfeita. Minha sanidade nem tanto.Eu vejo a menina de vez em quando, em sonhos e relances, mas não sei de seu real paradeiro. Eu parei de tentar entender. Eu parei de tentar esperar. Vivo agora um dia de cada vez, em sublime ignorância, sentindo eles ferozes e furiosos crescendo dentro de mim.