Wednesday, March 29, 2006

Cowboys

Tem uma cena de um sonho que não é meu. É de uma pessoa que eu conheci em Agrabah que tinha comprado um canário de uma moça da Penthouse que voou para lá tentar ficar noiva do sultão. A cena do sonho tambem não é dele, nem dela, nem do Sultão.

No sonho o sonhador esta acordado depois de dormir.Nessa cena o sonhador sou eu, mas é por pura casualidade. Quando o sonho for seu, e será, voce vai ser o sonhador.

O cara percebe que um mar extenso de sangue coagulado fervilha tres centimetros abaixo de seus pés. O mar, este mar, ferve a uma temperatura insuportável, e o cheiro de ferro é tão intenso que o sonhador tenta tapar o nariz, e tosse. O cara percebe a sorte do sangue estar coagulado, e percebe que as bolhas que quebram a película aparecem por sorte ou azar em pontos quaisquer. O sonhador agora tem pressa de sair. Mas não pode. Ele flutua, mas não sabe voar. Ele se vira, mas é tudo o que faz. Nos horizontes, apenas o céu negro da falta de ar, o vermelho-sangue do sangue, e o cheiro de ferro.

E do horizonte vem em velocidade uma nau. Esta nave de madeira corta o sangue coagulado e é timonada solitariamente por uma figura que parece ter apenas um braço fundido ao timão. A figura não olha nada. As velas do barco estão baixas, e o sonhador percebe que o barco esta parado, e que é ele, o sonhador em seu mundo do mar de sangue, que rodam em direção ao encontro.

O mundo para de girar em um abrupto momento.

A nau reboca uma draga. A draga é sustentada por grandes tambores de madeira e de um cano chupa o conteúdo do oceano vermelho e joga em seu chão. O sangue bate numa pessoa presa ao chão da draga e escorre em desperdício mudo de volta ao mar. No chão desta balsa esta você, que comprou este sonho, deitada de joelhos dobrados numa esteira bordada e verde. Quando o sonho for seu, voce tambem verá. O cara que sonha, que sou eu, olha para voce estendida no chão e ve que voce esta grávida de todas as coisas novas. Mas o bebe não pode sair porque a draga continua a mirar seu jato de imundíce nos meio de seus joelhos. Basta a mim descer e mover voce a uns poucos centímetros para sua direita, que tudo vai ficar bem.

E eu saio deste mundo de sangue e acordo.E quando acordo estou renovado de toda uma nova forma. Quero continuar a fazer o bem amanhã. E de repente quando durmo um jato de sangue fervente me acerta no meio dos joelhos, e eu vejo o céu negro parado sobre mim, e um mundo de sangue rodando embaixo do barco. E olho para voce parado impotente no céu. E quando acordo, te maldigo baixinho e olho com calma para o belo canário numa gaiola bordada de ouro deixado por Alguém aos pés de minha cama. Ele canta sobre a morte das coisas vivas num futuro próximo. Eu tento não dormir mais. E não consigo.

Dai eu te vendo este canário. E voce é agora o cara.

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