Tem uma mulher misteriosa que mora no sétimo andar no apartamento da frente. Todo dia, com uma pontualidade britânica, ela se veste como se fosse a ultima viagem do Expresso Oriente, toda paramentada de jóias e plumas, e com o garbo e o máximo de porte possível para uma senhora de 70 anos que tenta se equilibrar com um salto agulinha, e engatinha debaixo da cama.
Ela desaperece inteira embaixo da sombra do colchão e até o outro dia de manhã é só isso que se vê no quarto. O tempo que eu ja perdi observando aquele quarto vazio vai além do que eu gostaria de lembrar.
Ela reaparece logo que o sol começa a nascer, aparentemente bêbada, com o sapato na mão e o batom borrado. E uma vez, quando estava inverno e realmente quieto, coisa rara em São Paulo, eu acho que escutei uma música vindo lá de dentro.
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