Sunday, March 19, 2006

Gatinhos

Eu tava no centro e essa mina virou na minha direção com dois olhos inchados de tanto chorar e começou a vomitar gatinhos. Eram vários, e de várias cores, e saíram se espalhando pelas pernas das pessoas amedrontadas. Enquanto as pessoas corriam dos gatos, da menina e de umas das outras, eu observava. Sua garganta inchada parecia a de um sapo, e maioria dos seus dentes estavam quebrados. Em certo ponto ela tossiu tres gatos de uma vez e desmaiou, ou morreu. Eu nunca vou saber. Os gatos saíam imundos de dentro da menina desacordada e subiam pelos prédios, corriam pelas ruas e pulavam nas árvores. Eles eram tão pequenos. Eles eram centenas.

Pareciam perdidos, mas apenas pareciam. Logo que o último gato saiu de dentro da garota, eles pararam sua corrida em um uníssono incômodo, sentaram em sua pequenas esqueléticas patas traseiras e obervaram a multidão. Uma senhora distraída com as compras foi a primeira. Dois gatos saltaram do pórtico da prédio antigo, cravaram as unhas em cabelo, pele, roupas e óculos. Ela gritou de medo e de susto. Foi o que bastou. Os dois gatos entraram rápidos por sua boca, e num instante de confusão, ela levou as mãos à garganta, e tentou berrar, mas não se ouviu nada. A multidão confusa esolheu este momento para hesitar por uma fração de segundo. Foi um momento apenas, antes de mais correria. Um momento de silêncio.Daí os gatos atacaram. Eu não cheguei nem a ver a cor do que entrou na minha boca.

Poucos escaparam dos gatos aquele dia, a situação de extendeu por várias horas e mais algumas regiões da cidade. Hospitais foram interditados e a guarda nacional do exército isolou em confinamento praticamente a cidade inteira. Um multirão de médicos e cientistas tenta comprender até hoje o que aconteceu. Eu ja desisti dos testes. Outras pessoas não. Em vão os cientistas procuram vestígios dentro dos milhares que engoliram algum gato aquele dia. Quando o primeiro morreu, alguns dias depois, em circustâncias não relacionadas, a comunidade não escondeu o alívio. Morreu o primeiro! Agora sabemos que este gatos vão todos nos matar! Mas o tempo passou, e nada aconteceu.

Eu faço um checkup por ano, e a minha ficha vem assinalada como : "supostamente infectado no incidente de xx/xx". Minha saúde é perfeita. Minha sanidade nem tanto.Eu vejo a menina de vez em quando, em sonhos e relances, mas não sei de seu real paradeiro. Eu parei de tentar entender. Eu parei de tentar esperar. Vivo agora um dia de cada vez, em sublime ignorância, sentindo eles ferozes e furiosos crescendo dentro de mim.

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