Thursday, June 08, 2006

Magia

Teve uma vez que estava tão concentrado em tentar provocar um enfarto no meu professor de história da arte que eu consegui ler o pensamento dele. Foi bizarro, porque pensamentos não são historinhas lineares, filtradas por linguagem e blablas,,, são coisas cruas e duras e perigosas, e por um momento eu esqueci de mim, esqueci da minha consciência, e tava la dentro, na cabeça do Seu Gilberto.

Foi um instante, e nesse intante ele se preocupava com o futuro do seu pai idoso, percebia que esses alunos eram burros e apáticos, despia mentalmente uma garota da segunda fila, e sonhava em vender a casa, matar o filho e virar motoqueiro.

Quando eu sai do transe, e me encontrei suando no meio da sala, olhei bem fundo para os olhos dele e o compreendi inteiramente. Sem brincadeira, quando eu voltei, eu lembrava das sensações todas, e sendo eu outra pessoa que não o Sr. Gilberto, eu pude compreender uma outra pessoa totalmente...

O problema foi o enfarto depois... dai ficou chato...

titanic

Tem uma mulher misteriosa que mora no sétimo andar no apartamento da frente. Todo dia, com uma pontualidade britânica, ela se veste como se fosse a ultima viagem do Expresso Oriente, toda paramentada de jóias e plumas, e com o garbo e o máximo de porte possível para uma senhora de 70 anos que tenta se equilibrar com um salto agulinha, e engatinha debaixo da cama.

Ela desaperece inteira embaixo da sombra do colchão e até o outro dia de manhã é só isso que se vê no quarto. O tempo que eu ja perdi observando aquele quarto vazio vai além do que eu gostaria de lembrar.

Ela reaparece logo que o sol começa a nascer, aparentemente bêbada, com o sapato na mão e o batom borrado. E uma vez, quando estava inverno e realmente quieto, coisa rara em São Paulo, eu acho que escutei uma música vindo lá de dentro.

Monday, June 05, 2006

Sobre a espada

A Espada continuava encrustada na pedra, e o reino continuava sem rei. Milhares ja tinham tentado, ao ponto que os arredores da pedra se tornavam cada vez mais parecidos com uma cidade do que o descampado místico onde os druidas aguardavam a consumação da profecia.

Todo dia, de cavaleiros de reinos distantes à trovadores bêbados, uma fila se formava e tentava arrancar a droga da espada. Nem era uma espada tão bonita assim, mas a Inglaterra parecia consumida pela espera de seu Arthur. Isso ja durava mais de 50 anos.

Foi quando chegou um mercador Vienense na vila dos druidas. Ele era acompanhado por um mouro que trazia consigo um pó preto que cheirava enxofre, e disse que iria arrancar a espada dali. Ele demonstrou seu potencial escolhendo uma pedra similar mais distante, compactando esse pó em porções estratégicas e acendendo trilhas de corda com querosene de forma habilidosa e simultânea. Sem dúvida e de forma instantânea a pedra voou pelos ares e caiu em pedaços pequenos e distantes.

Os druidas se engasgaram e as crianças assustadas dispararm para longe dali, se esconder nas barras das saias de mães que olhavam boquiabaertas e pensavam "Agora vai".

Ficou marcado para a semana seguinte a tentativa do mercador italiano de se tornar o rei da Inglaterra. A expectativa se espalhou de forma rápida e certeira, e o boato ja estava bem grande no começo da semana seguinte. Nem a fuga do assistente mouro, numa madrugada, pareceu desanimar a turba. Ele tinha deixado bastante pó preto atrás de si.

No grande dia, o ducado estava em massa. Místicos e curiosos se aglomerevam atrás da corda de proteção, enquanto o mercador organizava sua equipe de cinco homens. O processo, perto do final, ficou silenciosos e laborioso, e demorou uma tarde inteira. O próprio duqeue estava presente. Nao arredou o pé da primeira fila.

Ao final da tarde, com um sol laranja e fraco, o mercador olhava atentamente as pontas dos fios embebidos em óleo que segurava em sua mão, e a tocha presa no chão. Tinha preparado um discurso, mas não se sentia com vontade de lê-lo. Parecia que ao invés de sua euforia que o acompanhou por toda a empreitada, o mercador começava a perceber que havia alguma coisa coisa bastante errada. Parecia que a espada simples e enferrujada tentava dizer alguma coisa. Sobre meios, objetivos e o futuro. Uma série de figuras. Mas a turba começou a se inquietar, e alguns mais ébrios ja ensaiavam um grito de "fogo".

O mercador chacoalhou suas superstições e acendeu o pavio. Nunca na história da Inglaterra um fio queimou tão devagar. Pareciam horas.. até que o fogo atingiu simultaneamente vinte nichos cheios de pólvora.

A pedra pareceu tremer por instante. E depois deixou de existir. Milhares de pedaços voaram por cima da multidão, machucando muitos... o barulho estrondoso foi ouvido à milhas dali, e por meses nenhum caçador conseguiu achar uma pássaro sequer nas redondezas.

O povo que tinha abaixado instintivamente calmamente se levantou e com esparança olhava a poeira abaixar. O mercador percebeu antes de todos. Tateava deseperado o chão.. e quando a multidão começava a aplaudir o feito, o mercador ja chorava copiosamente. Procurava a espada, mas só achava pequenos fragmentos de metal retorcido. Parte da jóia enrustada em seu cabo ele achou embaixo de um monte de couro queimado. Perdida. A espada do rei estava perdida. Imprestável. Quando a multidão perecebeu o que acontecera, todos começaram instantaneamente a procurar juntos. Sabiam que fora perdida uma coisa que não era para ser perdida. E procuraram por horas a fio.

Ninguem conseguiu achar a espada. Os fragmentos recolhidos não enchiam nem a palma de uma mão. A profecia não foi completa e os druidas se recolheram.

Eventualmente o duque contratou o mercador para trabalhar no desenvolvimento deste pó preto. O mercador capturou um barco de sábios orientais, e junto com o Duque engajou uma guerra sangrenta pelo controle de outros ducados. Com o pó explodindo os muros ficou fácil. O duque matou os druidas a noite e as bruxas de dia. Após sete anos da explosão da espada, ele proclamou seu filho soberano da Inglaterra, e a história da espada foi esquecida.