O louco de vermelho tocava clarineta como se fosse uma estrela de rock.
Tinha um resto de cabelo palha sujo para caralho no final de uma testa enorme e balançava a cabeça. e o cabelo ia se trançando com a clarineta, e era uma puta duma zona.
A música era a coisa mais bonita que eu ja ouvi, e de repente tinha pelo menos umas seis pessoas em volta do cara. Detalhe que era de madrugada e era numa estrada perto de Itapeva, então seis pessoas é bastante gente. Gente que parou o carro, e mais uns dois que estavam numa daquelas borracharias biroscas de beira de estrada.
O maluco de suéter vermelho estava praticamente convulsionando conforme a música ia num crescendo, e numa pirueta ele começou a entrar para dentro dum canavial. Ouvíamos a música diminuindo e alguns mais corajosos da nossa liliputiana multidão começaram a entrar no canavial atrás do músico. Eu não. Eu tenho família.
Mas foi a coisa mais bonita que eu ja ouvi, essa canção do louco.
Era uma daquelas músicas raras que falavam de um lugar que você ainda vai visitar, mas que ninguem conhece por enquanto. Era uma música linda cara, parecia que descrevia um pássaro. Eu voltei pro meu apê, e de vez em quando me pego chateado de saber que nada, nada, na minha vida, nem o riso do meu primeiro filho, vai soar tão bonito.