Wednesday, January 09, 2008

trecho

Eu permanecia sentado do lado dela, na soleira da janela, olhando o tráfego incessante de pedestres que atravessavam as ruas do centro.

“Você não pode simplesmente permanecer igual ao que você foi um dia... esta fora do seu controle fazer tudo voltar a ser como era.” Ela me disse com grandes olhos cheios de compaixão.

“Eu sei...” Respondi defensivamente.
Na verdade eu não sabia, mas sabia que devia saber.

“A verdade é como um acidente. É rara, mas quando aparece, torna-se irrefutável. A grande maioria das pessoas passa a vida sem pelo menos saber uma das grandes verdades, e você deve entender que descobrir uma coisa desta magnitude muda tudo.” Ela falava devagar, obviamente esperando que eu digerisse a tal da magnitude. O gato cinza-claro que rondava o apartamento escolheu este momento para pular em cima da mesa encostada na janela.

Foi nesse momento que eu notei que a janela do apartamento era daquela feita com duas lâminas de vidro, separadas uns 10 centímetros uma da outra. Como em hospitais. Tinham me dito que este tipo de janela é instalada em lugares com alta propensão a suicídios.

Quantas vezes será que ela já tinha sentado tristemente na janela e dito as mesmas palavras de conforto para alguma pessoa que tivesse acidentalmente percebido o que eu havia percebido alguns dias atrás.

Vários caminhos diversos levavam a este apartamento, e eu sabia que eu havia trilhado apenas um deles. Quantos deles saíram com a coragem de executar a missão? Quantos deles escolheram a janela?

Juntei algumas palavras “O problema não é saber, o problema é que agora que eu sei, eu tenho que fazer alguma coisa.”

“Coragem, garoto!” Uma mão no ombro. Um prêmio para o novo convertido.

Eu pauso e a verdade desce pela minha garganta. Desce de esgueio, do tamanho de uma bala soft. Chega a doer.

“Onde esta a arma?”

“Na gaveta embaixo do gato” Ela aponta a mesa. Eu me dirijo com pesar e abro a gaveta. Envolta num pano de cetim vermelho, a .44 esta com uma aparência velha, mas bem cuidada. Duas vezes mais pesada do que eu esperava, eu quase deixo cair no chão.

“Você se acostuma com o peso... “Ela se aproxima das minhas costas e sensualmente desce sua mão pelo meu braço até o cano da arma. “Você tem apenas duas balas” Sussurra no meu ouvido. “Uma é para você sabe quem...”

“E a outra é para mim...” completo sem senso de entusiasmo.