Tuesday, December 09, 2008

Clarineta

O louco de vermelho tocava clarineta como se fosse uma estrela de rock.
Tinha um resto de cabelo palha sujo para caralho no final de uma testa enorme e balançava a cabeça. e o cabelo ia se trançando com a clarineta, e era uma puta duma zona.

A música era a coisa mais bonita que eu ja ouvi, e de repente tinha pelo menos umas seis pessoas em volta do cara. Detalhe que era de madrugada e era numa estrada perto de Itapeva, então seis pessoas é bastante gente. Gente que parou o carro, e mais uns dois que estavam numa daquelas borracharias biroscas de beira de estrada.

O maluco de suéter vermelho estava praticamente convulsionando conforme a música ia num crescendo, e numa pirueta ele começou a entrar para dentro dum canavial. Ouvíamos a música diminuindo e alguns mais corajosos da nossa liliputiana multidão começaram a entrar no canavial atrás do músico. Eu não. Eu tenho família.

Mas foi a coisa mais bonita que eu ja ouvi, essa canção do louco.

Era uma daquelas músicas raras que falavam de um lugar que você ainda vai visitar, mas que ninguem conhece por enquanto. Era uma música linda cara, parecia que descrevia um pássaro. Eu voltei pro meu apê, e de vez em quando me pego chateado de saber que nada, nada, na minha vida, nem o riso do meu primeiro filho, vai soar tão bonito.

Mais Louco que o Batman

é a melhor frase de 2008 .

Por entre os dedos

Eu vejo areia escapando por entre os dedos.
O tempo que passa e cada minuto de tédio.
Conforme cai a substância da vida, levada para sempre pelo tempo.

Wednesday, January 09, 2008

trecho

Eu permanecia sentado do lado dela, na soleira da janela, olhando o tráfego incessante de pedestres que atravessavam as ruas do centro.

“Você não pode simplesmente permanecer igual ao que você foi um dia... esta fora do seu controle fazer tudo voltar a ser como era.” Ela me disse com grandes olhos cheios de compaixão.

“Eu sei...” Respondi defensivamente.
Na verdade eu não sabia, mas sabia que devia saber.

“A verdade é como um acidente. É rara, mas quando aparece, torna-se irrefutável. A grande maioria das pessoas passa a vida sem pelo menos saber uma das grandes verdades, e você deve entender que descobrir uma coisa desta magnitude muda tudo.” Ela falava devagar, obviamente esperando que eu digerisse a tal da magnitude. O gato cinza-claro que rondava o apartamento escolheu este momento para pular em cima da mesa encostada na janela.

Foi nesse momento que eu notei que a janela do apartamento era daquela feita com duas lâminas de vidro, separadas uns 10 centímetros uma da outra. Como em hospitais. Tinham me dito que este tipo de janela é instalada em lugares com alta propensão a suicídios.

Quantas vezes será que ela já tinha sentado tristemente na janela e dito as mesmas palavras de conforto para alguma pessoa que tivesse acidentalmente percebido o que eu havia percebido alguns dias atrás.

Vários caminhos diversos levavam a este apartamento, e eu sabia que eu havia trilhado apenas um deles. Quantos deles saíram com a coragem de executar a missão? Quantos deles escolheram a janela?

Juntei algumas palavras “O problema não é saber, o problema é que agora que eu sei, eu tenho que fazer alguma coisa.”

“Coragem, garoto!” Uma mão no ombro. Um prêmio para o novo convertido.

Eu pauso e a verdade desce pela minha garganta. Desce de esgueio, do tamanho de uma bala soft. Chega a doer.

“Onde esta a arma?”

“Na gaveta embaixo do gato” Ela aponta a mesa. Eu me dirijo com pesar e abro a gaveta. Envolta num pano de cetim vermelho, a .44 esta com uma aparência velha, mas bem cuidada. Duas vezes mais pesada do que eu esperava, eu quase deixo cair no chão.

“Você se acostuma com o peso... “Ela se aproxima das minhas costas e sensualmente desce sua mão pelo meu braço até o cano da arma. “Você tem apenas duas balas” Sussurra no meu ouvido. “Uma é para você sabe quem...”

“E a outra é para mim...” completo sem senso de entusiasmo.