Thursday, April 27, 2006

Quando a casa caí

Eu via todo mundo se transformando em ratos. Nunca, eu pensei comigo mesmo, eu me sujeitaria a tamanha vergonha. Sou um homem. Não sou um rato. Eles se encolhiam e diminuiam e em sua mesquinahria atravessavam o pequeno buraco por onde passa o ar condicionado do prédio.
Foi quando eu senti o calor do fogo atras da porta, e a fumaça começou a invadir a sala.
Como eles viraram ratos?! Precisva virar um rato, mas os ratos ja tinham ido embora.
O buraco do ar-condicionado é grande demais para mim. Os bombeiros gritam da rua, mas eu não consigo ouvir.

Monday, April 24, 2006

musica 1

Me pagaram para fazer
Me disseram pra largar
Me falaram que era hora de parar
Me cobraram por falar

Mas eu vou ouvindo,
vou ouvindo, vou ouvindo e esquecendo.

Mas diz ai, se estão tão certos,
Qual o nome do monstro do seu armário?
Quantas estrelas voce ve da sua janela?
Quem matou Galileu?
E por quem voce vai chorar na hora de morrer?

Mas eu vou andando,
quebrado, sorrindo e vivendo.

Wednesday, April 19, 2006

menos

Estava escuro e eu abri a janela. A noite veio e eu liguei a luz. O silencio incomodou e eu pus uma musica. A musica era triste e eu abri um vinho. Eu não tinha o que fazer e acendi um cigarro. Eu tinha um espelho no banheiro que eu ja quebrei.

E mesmo fazendo 120 na bandeirantes eu olho pro lado e o motorista sou eu.

inserir texto

Eu ia ser cínico.. eu queria ser ácido e cínico e esperto. Demonstra inteligência. Mas eu ando uma criança que só quer brincar e abraçar todo mundo. Eu queria xingar, mas só consigo nutrir apreensão. Pelo tempo que todo mundo perde sendo tão esperto. Sendo tão individual e tão esperto. Cansei de ser o colunista do erro e da apreensão. Quero explorar o continente das coisas que dão certo.
Parece que eu estou sempre esperando o fim das coisas para dizer "bem que eu disse", ou "eu ja sabia". Um segredo rápido, para todos os espertos. Eu não sabia merda nenhuma. E só disse merda.

Tuesday, April 18, 2006

pascoa

Se o ano 33DC fosse hoje, no boa noite brasil a manchete ia ser:

"Judeu Zumbi Some da Tumba e Aterroriza a Galiléia!"

Monday, April 17, 2006

são paulo II

Tem um pé de alface estragado em cima da mesa.
Tem um chocolate meio comido.
Tem um cheiro de laranja velha.
Uma vela pelo fim.
A luz ainda não voltou.
São tres dias de eclipse e a tv ja esta fora do ar.
Eu tinha aguentado tudo até agora. Os sumiços, as doenças, os motins, os malditos e intermináveis motins.
Eu tive que matar um homem que tentou entrar aqui.
A escuridão la fora é selvagem, e o frio entra nos meus ossos como uma anestesia líquida de ultima geração. Willian Bonner chorou no ar anteontem.

Sem tv não vai dar. Vou pegar uma faca e caçar comida na Pompéia.

Quem sabe o sol volta. Dai vai ser uma festa. Ah, meu irmão, quando o sol voltar vai ser a festa das festas.

internet é legal

antes disso... achei na internet.. acho que foi em 2003... fiquei feliz.

http://www.evirt.com.br/contos/bruno01.htm

fim da primeira parte

Esses eram os textos dos dois anos passados. Agora é só coisa nova.

Monday, April 10, 2006

bossa

Foda-se a aura, foda-se o karma
eu vou vender meu violão
e comprar uma arma

Eu perguntei pro homem de branco
e as crianças que morrem dormindo?
E o homem respondeu calado:
Os erros dos homens não tem lugar nessa bossa.

Paranaguá - SP

Das várias histórias que o meu avô me contou sobre as missões de exploradores que fundaram a cidade de Paranaguá, talvez esta seja a que mais me impressionou. Eu já não era criança, mas também não era grande o suficiente para pensar em meu avô falando algumas das obscenidades que eu tento repetir agora.

Dizem que em 1790 havia um caminho de terra que cortava da cidade de Campinas até a fronteira com o Estado de Minas Gerais. Este caminho na mata começou a ficar largo e movimentado na proporção em que mais fazendas de café se instalvam em suas margens. Entre um ponto e outro, perto de um fio de água desimportante chamado Paranaguá, que corria modesto mas constante em direção ao oeste, um assentamento de burros de carga foi talhado na mata. Uma clareira forçada, à menos de 50 metros de uma das curvas do rio, e mais uns 50 metros até a estrada. Na clareira instalaram uns cochos e uma cabana modesta para vigília dos burros que dormiam ali. Tudo modesto, pois os grandes carregamentos simplesmente podiam andar mais entre as duas vilas vizinhas.A clareira do córrego logo virou um ponto para todas as cargas de pessoas que não tinhmam condições de manter carroças puxadas por cavalos, ou condição de trazer mantimento seco o suficiente para puxar mais de um dia seguido na estrada.
Isto não foi meu avô que disse, mas um resumo do que aprendi na escola. Na escola eu aprendi também que um caçador chamado Quino Paez que tinha vindo do sul começou a fazer da clareira um ponto de negócios entre pequenos comerciantes. Logo uma pousada e um bar surgiram, e a cidade começou a florescer modestamente, se afastando do córrego e se afastando da estrada.

Este salto lógico entre um monte de toco para amarrar burro e uma cidade de comércio parecia normal no primeiro grau, mas meu avô não seria enganado. Não ele. Ele sabia a verdade. Na verdade, como vim a perceber depois, quase todo mundo sabia da verdade, e eu acho se você ja tivesse se sentado para fumar um cigarro e tomar uma pinga (e essa era a combinação que indicava um caráter confiável quando meu avô era jovem), você também saberia.

Existia um caçador chamado Quino Paez, um argentino desdentado, e sim, ele veio para estas bandas e sem querer começou uma cidade. Agora meu avô olhava para mim e dizia “... mas caçar o que aqui? Café?!” As fazendas tinham afugentado qualquer caça valiosa de um raio de mais de um dia de viagem. Claro que um esfomeado podia achar um veado perdido nas fronteiras entre as fazendas, mas isto não era profissão, e com certeza vendendo veado não se formava uma cidade (embora as informações sejam conflitantes a respeito disso).

Então meu avô olhava para um copo americano de tamanho diminuto e dizia que as únicas coisas que fariam um cara parar no meio do nada e pousar gastando dinheiro para isto eram três : Mulher, bebida e mais dinheiro. Quino Paez não era dono de prostíbulo, e pelo jeito das coisas nem mesmo a mais generosa matrona gastaria seu tempo armando uma cabana ao lado de cinquenta jegues, burros e mulas.

Bebida era um cenário mais possível. Um alambique clandestino não era tão difícil de constuir, e com tanta gente carregando um pouco de cana para lá e para cá, é bem possível que o casebre de Quino tivesse sua própria receita para aguardente. Então talvez Quino tivesse um bar. Algo para beber, um espaço para dormir e um preço modesto. Mas havia incontáveis paradas de estrada com este propósito pelo Brasil afora, e não foram muitas que viraram cidades, então qual era a diferença?

- “Bosta!”. Categórico meu avô olhava para mim com olhos um pouco mais fundos que o normal e apontava para toda sua volta. “Bosta para todo mundo, tudo isto aqui, do prédio alto até a cruz de ferro da Matriz, tudo com dinheiro de merda”

Isto eles não falavam na escola.

O homem vêm usando fezes de animais para melhorar suas colheitas desde quase o começo da agricultura. Isto se fazia às margens do Nilo, nos vinhedos da França, nos milharais do Norte e em todo pomar e jardim. Quino, se dizia, na verdade tinha aberto um bar de pinga para dezenas de tocadores de mulas de produtos variados. Voce consegue imaginar a sujeira que cinquenta animais faziam numa área de um quarteirão? -“Era muita merda”. Longe o suficiente do riacho para que não compensasse jogar lá. Talvez até tivessem jogado. Na época mais seca, embora até meu avô fosse ressabiado com esta parte da história, diziam que depois de descarregar o montante de dois dias de esterco no córrego, ele simplesmente parou e represou, inundando a mata ao lado e escorrendo pela estrada, e naquela época um tocador de cavalo de uma das poderosas fazendas de café da região tinha jeitos bastante criativos de intimidar o paspalho que tinha lotado o rio de bosta.

Não se sabe quem e como o negócio começou, mas dizem que um fazendeiro ao ver uma pilha descomunal de bosta sugeriu que se Quino quisesse, ele poderia se livrar daquela sujeira toda. Quino, que aparentemente não era tão paspalho assim, juntou dois com dois e pôs um preço, que na cabeça dele era exorbitante. O fazendeiro levou pela metade do preço. Quino tinha ganho o equivalente à exorbitante dividido por dois, o que para ele, era muito.
Logo Quino olhava por sua janela à noite, e ao invés de mulas ele via máquinas de dinheiro. Ele começou a alimentar os animais com comidas especiais, pesadas. Muita comida. Não bastou muito até ele começar a misturar um laxante no meio das pedras de sal, e quanto mais fedia seu quintal, mas Quino sorria.

Neste mundo não existe um segredo sequer, e depois de um tempo frequentadores mais assíduos começaram a jogar umas perguntas sobre como o senhor Quino tinha arranjado dinheiro para comprar aquele colchão da cidade grande. Quino sentiu a situação e começou a dar hospedagem de graça para quem trouxesse mais de cinco animais graúdos, ou sete porcos, ou vinte galinhas numa gaiola trançada que não tivesse piso forrado. Com a possibilidade de dormir bem e de graça, comerciantes começaram a viajar com animais extras para alcançar a cota de Quino, e antes da história notar aquela bagunça, estava tudo escancarado. Agora existia um sistema para quela merda toda. Catalogado, separado, pesado e embalado, o esterco de Paranaguá ganhou fama regional. O bar se estendeu a um hotel. Os fazendeiros mandavam buscar quantidades exorbitantes de estrume, e a nata dos capitães de comércio paravam para beber e levar carroças cheias, não sem antes deixar sua própria contribuição. Até o conteúdo das casinhas e fossas era embalado, embora para o pouco de bom gosto que resta a esta narrativa, eu escolho não revelar que parte essencial de nossa agroindústria buscava avidamente esta espécie de mercadoria.

Com o hotel veio o divertimento, e com o dinheiro dos compradores de esterco as praticantes da mais antiga profissão do mundo aprenderam a esquecer do cheiro de merda e armaram sua “casa de danças”. “Aquela merda cheirava melhor que muitos dos clientes” garantia meu avô, numa tentativa frustrada de amenizar a condição toda.

Logo os apanhadores de estrume tiveram filhos, e dos filhos dos apanhadores de estrume veio a necessidade de manter um pouco de ordem. Logo um padre veio e uma capela foi erguida com o dinheiro de fertilizante. Na beira da clareira novos caminhos haviam sido cortados, armazéns se ergueram, e um tímido comércio floresceu. E então um Quino Paez velho e elegante parou no centro da antiga clareira, cercado de mulas com diarréia e proclamou. “Amigos, viemos de muito longe. Olho para os lados e vejo que nosso trabalho rendeu frutos, e este frutos formaram uma comunidade. Que nenhum homem e mulher de agora em diante tenha vergonha de dizer que nasceu na curva do Paranaguá!”. Embora meu avô acreditasse que ele na verdade não tinha dito nada disso, e que qualquer grupo de pessoas cercados de um bar, um puteiro e uma igreja sabiam que aquilo já era uma cidade, e aquela cidade já tinha nome.

Dizem que Quino faleceu em seguida, e na praça central um humilde monumento de pedra foi erguido, e os coletores de estrume tranferiram seu negócio para uma região mais acima na cidade, mas, por um breve momento, me vinha a imagem na cabeça de um grupo de pessoas de bem, vestidas com roupa de domingo, caminhando até a igreja com botas altas para andar no meio daquela merda toda.